quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mulé rendera


Sigo perseguindo tramas,
conflitos,
revivendo dramas
ancestrais

Colecionando loas
e coletando dados
De mãos dadas
Fé e racionalidade

Razão que não embota
a emoção que vaza
Brota, como a rosa amarela
e seu calor

Emana, suave como a pétala,
bruta como o espinho
Dói, rasga a pele,
mas é antídoto do próprio corte

Entre o comum e o diferente
quero os dois...
Links e laces,
retiro e multidão

Gemini ser e sentir,
sempre na contramão...
Alheio a tudo - o copo, o movimento,
o Tempo escorre, definitivo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Recado



Em meio ao murundu de coisas
no universo colorido do brechó
um pacotinho plástico
cheio de papeizinhos
cartões postais e santinhos
(não de políticos, santos mesmo!)

Peguei, não resisti, comprei
Abri em casa, curiosa,
Dezenas de cartões postais,
sem escrita e sem selo
de vários locais, as fotos antigas...

Mas o tesouro, as figurinhas
de santo, adivinha quem?
Nossa Senhora do Rosário
e São Benedito, os principais
repetidos, em várias ilustrações
anos de festas das Irmandades,
de novena e devoção sem fim
Santo e santa dos escravos,
padroeiros da gente "de cor"

Mais uns outros, variados:
Nossa Senhora da Conceição Aparecida,
a do Carmo e a de Fátima,
o Expedito nunca falta,
Menino Jesus, Sant'Antoninho,
rezas, pedidos, novenas,
pela chaga no ombro do Cristo...
em textos que voltam no tempo
até onde eu não era nascida

E junto com todos os santos
Acompanhando São Dito
e a Senhora do Rusarinho,
de braço dado co'eles dois
a maior riqueza,
a maior vergonha,
a dor da Escrava Anastácia...


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Verão


Solto as tranças
e a mãe vem lavar
o cabelo comprido
sem pressa

Sentadas ao sol
ela desembaraça
e cantarola
uma velha canção

Tudo está bem
a mão percorre os fios
rapidamente:
novas tranças

Calor do sol,
do corpo da mãe
das mãos
no gesto ancestral

Avó, bisavó,
as índias e as negras
herança
discreta vaidade

Uma vez ouvi, comovida
a poeta recitar
A voz falhou
no poema da mãe

Rapidamente secou a lágrima
e recusou num gesto as palmas
_Vim de Divinópolis, pra dar vexame em São Paulo!

Respirou fundo
e recomeçou
desta vez até o fim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Modo de espera

"Estou pousado em mim
Igual que formiga
sem rumo."

Só mesmo o poeta
poderia definir assim
só mesmo o homem-terra
que vê nas águas refletido o céu
que enxerga nas minúcias
o que atropelamos

O inseto mais diligente, perdido
pode outra imagem ser tão precisa?
A angústia de ensimesmar-se
Estar em si, desencontrado do entorno
Estar além, desencontrado de si

Cada vez mais acredito
na observação como origem
das mais belas obras
A observação atenta e minuciosa,
o olhar poético, encantado, encantador,
sobre a natureza,
simples,
misteriosa,
absoluta

A natureza da qual, esquecemos,
fazemos parte
Como fazem parte do corpo
a cabeça
e o coração.

" A normalidade é assombrosa.
Sua puerícia é mesmo carne de poesia."

As citações são de Manoel de Barros e Adélia Prado, respectivamente, nas obras: Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo e Manuscritos de Felipa. Hoje estou formiga.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tempero

Carece não dividir
o corpo e a alma
Deixar fluir a canção
no ritmo mesmo do tempo
Criar e lamber a cria,
arrodear,
cercar de cuidado e depois
ver partir
Carece destrancar
o rosto e o caminho
Deixar o ir e vir
suavizar a pedra,
apurar o doce.
Carece amar sem receio,
doer sem remorso,
moer o grão pequenino
entumescido de sol
em tão fino pó
que uma pitada
baste.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fóssil


De acordo
com os cálculos
(cálculos são pedras!)
há conchas
desde os primórdios.
Os tenros moluscos
que as habitam
também.

A casa então
é milenar.
Existe
desde que o mais mole dos seres
se escondeu do predador
e secretou (secretar é um verbo esquisito)
misto de areia e sucos gástricos
e expeliu (expelir é bom)
o misto de si e do meio
que viria a habitar.

Estas são as hipóteses científicas.
No meu ABC, fica assim:

O homem, com inveja, construiu
com barro, excremento e palha
também sua casa
Madeira veio depois
Metal e vidro mais adiante
O plástico, o papelão,
n'algumas moradas hoje.

Dona Doida diz que Deus gosta
de espiar a casa do homem
Seu olhar por cima
da cumeeira do mundo.
O que será que Lhe apraz?

Como o molusco na concha,
nossa imensa solidão?
Ou nossa capacidade
de povoar de mistérios,
de agregar criaturas,
de miniaturizar o universo,
criando para nós mesmos
o que houvera de agradá-Lo?

Sempre pensei no Deus
jogando eterno xadrez
com Aquel'outro.
As partidas se sucedem
ganhando, ora Este ou Aquele.
Então nosso mundo,
possa ser que seja o prêmio:
a casa de bonecas,
todinha mobiliada
e com a gente dentro.

Mas o bom que Eles acham
é jogar!

Dona Doida é a personagem do poema de Adélia Prado que ganhou vida na peça teatral com a atriz Fernanda Montenegro.
Gaston Bachelard escreveu um livro sobre A Poética do Espaço, assim como escreveu sobre a água e o ar...
Desde criança, tenho fascínio por conchas.




sexta-feira, 9 de julho de 2010

Bispo



O poeta é um fingidor...

Definitivamente.
Dilacerado, ainda sangrando, finge.
Risonho e franco, ensolarado, finge.
Embriagado de sua importância, finge...

Perdido no tiroteio, ainda assim,
com pompa e circunstância,
finge que está só de passagem,
nas mãos o caderno de anotações.

A linha que divide o real do imaginário,
o mundo paralelo, onde reina,
é tão tênue quanto a máscara
que insiste em portar.

O poeta não engana ninguém,
a não ser a si próprio,
com seu paletó invisível
que só alguns podem ver...

Com a flor na lapela inexistente,
espalha seu perfume por aí,
indiferente aos cáusticos
e aos sonolentos.

Seu delírio é tamanho,
que Vê.

Finge tão completamente,
que chega a pensar que é dor,
a dor que deveras, sente.

A citação é de Carlos Drummond de Andrade, para quem uma pedra não é só uma pedra.
O Rei está nu é um conto inspirador.
Arthur Bispo do Rosário criou sobre a dor, o desprezo e a ignorância, uma roupa pra ver Deus.