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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mulé rendera


Sigo perseguindo tramas,
conflitos,
revivendo dramas
ancestrais

Colecionando loas
e coletando dados
De mãos dadas
Fé e racionalidade

Razão que não embota
a emoção que vaza
Brota, como a rosa amarela
e seu calor

Emana, suave como a pétala,
bruta como o espinho
Dói, rasga a pele,
mas é antídoto do próprio corte

Entre o comum e o diferente
quero os dois...
Links e laces,
retiro e multidão

Gemini ser e sentir,
sempre na contramão...
Alheio a tudo - o copo, o movimento,
o Tempo escorre, definitivo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Guarani


Quando o vento vem rodar
Nas palhas, penas e folhas
Quando vem, carinho ligeiro
grudar poeira vermelha
nos cabelos, penas, pele
Com gaviões e urubus

a gente voa

É gente e voa


Quando o cheiro da chuva

levanta o cheiro da terra

embriaga o capinzal

Pés-de-conta pingam
brota água do barranco
a gente chapinha
Vira peixe e brilha


Se o vendaval seco bole

Se a chuva acende o brincar

O fogo, então, quem dirá?


Tupana alegre, se junta

com o velho e sábio avô

Ao pé do fogo cirandam

voz, histórias e lembranças

além do tempo e lugar


Tatá, o fogo, conhece

o que há prá conhecer

A gente acende por dentro

escuta a fala do Tempo

É brasa na escuridão

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Origami


Vania dobra papel
e na sobra do tempo

desdobra a voz:
canção

Vania Passos é a mais nova amiga de infância.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Seu Zé tá pensando em boi...



O pai

se vai a cada dia
tentando entender
e ficar
aqui

A cada momento
escuta mais
seus sons interiores
sons antigos
de um tempo bom

O pai
cansou da lida
mas ainda resiste
buscando refúgio
nas mínimas coisas

Aprendeu
que é no trabalho que reside
a honra de um homem
que é assim que tem de ser

Um homem bom
de caráter firme
vive bem-humorado
mas luta contra o tempo

Contra o corpo
que já não o obedece
Contra a impossibilidade
de ser eterno

O pai perdeu, buscando,
alguns de seus muitos amigos,
seus ancestrais
mas mantém sua fé

O pai, que viu no caminho
a onça braba, cobra, sezão,
a fome, a seca, pilares e pedras
Hoje esconde as dores
pra que a gente não sofra

E apesar da rabugice
que se insinua
continua tentando
compreender

A cidade, a gente,
os adolescentes, o tempo,
a tecnologia, o silêncio,
sua sina, ganhos,
perdas

Meu sonho é levar
o pai de volta
ao lar natal
Tenho medo, porém
que ele não reconheça
nada mais de seu

Talvez a viagem
me apavore mais
que ao pai
pois que ele não tem medo

Foi ele
afinal
quem me ensinou
a enfrentar o mar

Seu Zé, José, o Zé Grande, tem mais amigos do que pode contar. É o vô que conserta tudo e que dirige como ninguém. É o homem que gosta de pescar, de estar em família e de cafuné. Que dá risada e procura um docinho depois do almoço. Que nos cobra sempre, fazer o que é certo. A benção, pai!
"Seu Zé tá pensando em boi" é uma frase da canção "Seo Zé", de Carlinhos Brown.

The father goes
each day
trying to understand
and to stay here
At each moment listening more
his interior sounds
old sounds of a good time

The father is tired
of the chore
but he still resists
searching shelter
in the minimum things

He learned
that it's in the work
that inhabits the honor of a man
that this is how it has to be

A good man of firm character
he lives well
but fights
against the time

Against the body
that already it does not obey him
Against the impossibility
of being perpetual

The father lost, searching for,
some of his many friends,
his ancestral ones
but he keeps his faith

The father, who saw in his way
the panther, diseases,the hunger,
dry soil, pillars and rocks
Today hide pains for us not to suffer

Although the bad humour
that sometimes come to him
continues trying
to understand

The city, the people,
the teenagers, the time,
the technology, silence,
his destiny, profits, losses

My dream is
to lead the father
in return
to the native home

I have fear, however
that it doesn't recognize
nothing more
as himself

Perhaps the trip
terrifies me more
that to the father
therefore that he doesn't have fear

He was, after all
who made me learn
how to face the sea

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quando

Revelação
se dá
quando
no silêncio
grita
muda
uma Verdade

Poesia
se dá
quando
aparece
ilesa e nua
a carne
da Palavra

Canção
se dá
quando
a ousadia
rompe o ar
vibrando Som

Gorjeio
se dá
quando
distraído
o Pássaro
assovia

Anseio
se dá
quando
o murmúrio
cego
cambaleia

Desejo
se dá
quando
não cabe
no corpo
essa Vontade

Amor
se dá
quando
a Morte
não faz mais
que companhia

Fatalidade
se dá
quando
o inevitável
atropela o Tempo

Sonho
se dá
sempre
que se permite
o Possível
A aquarela mostra um guerreiro, com a pintura tradicional do seu povo, que vai do rosto até os pés. Nos ritos de passagem, u
tilizavam garras de onça para a escarificação e jenipapo, para colorir e cicatrizar. Realizá-la foi uma jornada de introspecção e de diálogo com a água. Está no livro "O Sinal do Pajé", da Editora Peirópolis.

domingo, 6 de julho de 2008

Mãe


Dói um pouquinho
deita um pedacinho
chora um bocadinho

vida mais ou menos
sonho grande, imenso
vôo ensaiado

mão atarefada
pé descalço, farpa
corpo em movimento

perfume, brisa, tempo
pluma, céu, desejo
doce encantamento

rodamoinho
flor, passarinho
colo quentinho

saudade...

Pra Valéria Marchesoni, que é mulher, mãe e sente saudade.