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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Guarani


Quando o vento vem rodar
Nas palhas, penas e folhas
Quando vem, carinho ligeiro
grudar poeira vermelha
nos cabelos, penas, pele
Com gaviões e urubus

a gente voa

É gente e voa


Quando o cheiro da chuva

levanta o cheiro da terra

embriaga o capinzal

Pés-de-conta pingam
brota água do barranco
a gente chapinha
Vira peixe e brilha


Se o vendaval seco bole

Se a chuva acende o brincar

O fogo, então, quem dirá?


Tupana alegre, se junta

com o velho e sábio avô

Ao pé do fogo cirandam

voz, histórias e lembranças

além do tempo e lugar


Tatá, o fogo, conhece

o que há prá conhecer

A gente acende por dentro

escuta a fala do Tempo

É brasa na escuridão

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Nanã

A superfície mutável do lago,
cinza-chumbo na chuva, quase sólido,
verde claro ao meio-dia,
alaranjado na tarde,
reflete luzes à noite

E não importa
se o caos impera ao redor
carros, buzinas,
namorados, hip-hop
pipoqueiro e hot-dog

Crianças em meio
aos pit-bulls encoleirados
moças de roupa justa,
homens que correm
(atrás de que, meu Deus?)

O lago impávido, observa
com a placidez de Nanã
Pulam peixes prata,
Tartarugas emergem

Alvas garças, mergulhões,
patos, marrecos, biguás,
ninhal improvisado nas árvores
da ilha, como convém

O convívio com o lago
na praça onde imperam
árvores que me sabem,
que me viram brincar,

tirar retrato, carregar cenário,
brigar e fazer as pazes,
alimentar menino,
passear cachorro...
tudo vem à tona

Na superfície do lago
a história de meus pais,
meus avós, recém-chegados
de Minas, a trabalhar
Na algazarra das maritacas,
a alegria da filharada...

E então me sinto como pedra
que rola, alisa, modela seu viver
e sonha voar,
sem quase sair do lugar

Essa foto, que eu adoro, foi tirada pela Cíntia Nagatomo e apelidada "Céu de Munch".
A grade quebrada já foi restaurada.
Os céus alaranjados voltaram nas tardes de junho.
Venham ver...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Menino


Segue ligeiro o trem bão,
ferro em brasa, recordação
apito que lembra a casa
colina, cerca, canção

Tiziu, coleiro, sanhaço
frutinha boa no mato
carrapicho, carrapato
botina ou de pé descalço

Riacho, córgo, cascata
menino embrenha na mata
perde caminho, se acha
linha, anzol, minhoca, lata

Adormece no capim
sonha, quase um serafim
bala, maria-mole,
coquinho e amendoim

Acorda, sente a fisgada,
peixe grande na linhada
puxa meio atrapalhado,
o dia ganho, por fim

Mãe vai ralhar, decerto
pai vai ficar contente
o peixe vai pra panela
com farinha, pirão quente

_Caba não, mundão!
Esse poema, quase cantiga, foi feito pro Bré, mineirim da Zona da Mata e grande percussionista.