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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Guarani


Quando o vento vem rodar
Nas palhas, penas e folhas
Quando vem, carinho ligeiro
grudar poeira vermelha
nos cabelos, penas, pele
Com gaviões e urubus

a gente voa

É gente e voa


Quando o cheiro da chuva

levanta o cheiro da terra

embriaga o capinzal

Pés-de-conta pingam
brota água do barranco
a gente chapinha
Vira peixe e brilha


Se o vendaval seco bole

Se a chuva acende o brincar

O fogo, então, quem dirá?


Tupana alegre, se junta

com o velho e sábio avô

Ao pé do fogo cirandam

voz, histórias e lembranças

além do tempo e lugar


Tatá, o fogo, conhece

o que há prá conhecer

A gente acende por dentro

escuta a fala do Tempo

É brasa na escuridão

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Faxina


Descobrindo os cantos escuros
tirando a poeira acumulada
no correr dos dias

Esfregando até limpar
tudo o que precisa
de água e cuidado

Abrindo a casa
pra Dona Maria entrar
aquela que zela

Colocando flor no vaso
vaso no canto
pedra em redor

Doando tudo
o que já não servia
e esperava novo dono

Preparando a casa
a comida, o aconchego
com carinho redobrado

Pra vencer o tempo
que corrói as coisas
pra abrir espaço

Que o novo chega
com esperança e brilho
quando a gente brota

Primavera flor
perfumado fruto
louvação de lar

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Inverno na aldeia


As folhas não cessam de cair
Na Vila onde nasci
Medito enquanto varro
Folhas secas por aqui

Pra onde vão as folhas
Quem as leva, afinal?
Antigamente as queimava
No chão liso do quintal

A fumaça subia alto
Defumando tudo ao redor
Cheiro de folha, de mato
De aldeia, de pisadô

Os animais se afastavam
No monte, carvão e brasa
As crianças cutucavam
Vagalumes pelo ar

A fogueira era a extensão
Do fogão de lenha da Vó
Cheiro bom, casa quentinha
Sabão de cinza, sem pó


A brincar, fumávamos
pitos de palha, doces
A Vó se ria, cúmplice
Das nossas artes, das tosses

Também era Vó que ajudava
A criar nosso fogão
Com tijolos, galhos secos
Nossa cozinha no chão

Para onde foi a Vó,
como a fumaça, subindo?
Pra onde a nossa inocência,
Cachorros, terra, sumindo?

Hoje nada mais se pode
Nem fogaréu ou fogão
Nem pitar, brasa, fogueira
Nem inventar, nem balão

Quero um viver mais alegre
"Do que este que nos dão"
Brincar com água sem pressa
Fazer bolhas de sabão

De terra, água, ar e fogo

Nosso viver era feito
Quero que nossas crianças
Possam ter esse direito

Pra Vó Maria da Paz, minha saudade.
Luiz Gonzaga tocava no rádio: "Sala de Reboco", de onde vem a frase entre aspas.

domingo, 15 de junho de 2008

Muito barulho por nada

Nosso alimento
escrito
pintado
no muro
parede
papel
tela
lona

forma a teia
estica o fio
traz pra perto
afasta
corta

o alimentar-se
sem saliva
com palavras
sem som
e imagens
sem tinta
instiga
intriga
intimida

traz alegria
paranóia
susto
pressa
calma

traz a paz do trabalho realizado
a sensação de algo por fazer
inconcluso
inacabado
inoperante
só terminado
quando retro-alimentado

Alimentar-se de luz?
"_Filha, disse-me Deus, eu só como palavras..."
eu as descomo, arranjo, reordeno,
(brinco de Verbo fazer-se carne)
podem ser doces, atraentes,
fel, bile e sangue

Ao fundo,
a Morte,
espia
divertida
quem se afoga

num copo com água...

O processo criativo é um tema recorrente.
Às vezes colorido, outras, dolorido.
Em meio virtual fica ainda mais interessante...
Muito barulho por nada é uma peça de Shakespeare.
A frase citada entre aspas é de um poema de Adélia Prado,
no livro Oráculos de Maio.