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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Inverno na aldeia


As folhas não cessam de cair
Na Vila onde nasci
Medito enquanto varro
Folhas secas por aqui

Pra onde vão as folhas
Quem as leva, afinal?
Antigamente as queimava
No chão liso do quintal

A fumaça subia alto
Defumando tudo ao redor
Cheiro de folha, de mato
De aldeia, de pisadô

Os animais se afastavam
No monte, carvão e brasa
As crianças cutucavam
Vagalumes pelo ar

A fogueira era a extensão
Do fogão de lenha da Vó
Cheiro bom, casa quentinha
Sabão de cinza, sem pó


A brincar, fumávamos
pitos de palha, doces
A Vó se ria, cúmplice
Das nossas artes, das tosses

Também era Vó que ajudava
A criar nosso fogão
Com tijolos, galhos secos
Nossa cozinha no chão

Para onde foi a Vó,
como a fumaça, subindo?
Pra onde a nossa inocência,
Cachorros, terra, sumindo?

Hoje nada mais se pode
Nem fogaréu ou fogão
Nem pitar, brasa, fogueira
Nem inventar, nem balão

Quero um viver mais alegre
"Do que este que nos dão"
Brincar com água sem pressa
Fazer bolhas de sabão

De terra, água, ar e fogo

Nosso viver era feito
Quero que nossas crianças
Possam ter esse direito

Pra Vó Maria da Paz, minha saudade.
Luiz Gonzaga tocava no rádio: "Sala de Reboco", de onde vem a frase entre aspas.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Instrumento


Que voz é essa?
Que silencia as professoras tagarelas
E afina o coral dos pequenos
colocando o ar lá
onde deve mesmo sair...

Que levanta véus e véus de saudade
e desata a lágrima agridoce
Que brinca consigo mesma,
tiziu pulando em pautas de cantarolar

Que adormece a criança cansada
com o mesmo tom grave da terra
Que reverbera, límpido instrumento
enchendo o ar com mais ar

Que cabe em l'amour e sinhá
_ Vai cantar mais,não?

Renato Braz é um intérprete de primeira. Seu repertório é brasileiro e já o levou para o outro lado do mundo. Expressa sua origem no que escolhe para cantar. Adoro sua voz . Suas vozes...


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ainda Alice


A menina não mora mais
no lar que a rejeitou
Foi habitar o ar
voou pra longe

A criança descalça
e de cabelos revoltos
deixou a casa
em paz

A rebelde
continua pulsando
incomodando
em anjo travestida

Que fim a espera?
Qual o final da história?
Em que país de maravilhas
terá lugar?

O deserto pode ser gelado
um coração pode ser deserto
areia pode ser cinza
água pode queimar

Força, coragem
Luta e poder
Crueldade, dor
emanam de imagens

O que libertamos
com o que imaginamos?
Que cordas
reverberam no outro?

Buscamos na arte
voar também
bem alto
como a menina

A pintura Alice foi destruída, sua imagem e texto, retirados do blog. Reapareceu na memória da camera fotográfica. Ainda posando pra foto.