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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Nanã

A superfície mutável do lago,
cinza-chumbo na chuva, quase sólido,
verde claro ao meio-dia,
alaranjado na tarde,
reflete luzes à noite

E não importa
se o caos impera ao redor
carros, buzinas,
namorados, hip-hop
pipoqueiro e hot-dog

Crianças em meio
aos pit-bulls encoleirados
moças de roupa justa,
homens que correm
(atrás de que, meu Deus?)

O lago impávido, observa
com a placidez de Nanã
Pulam peixes prata,
Tartarugas emergem

Alvas garças, mergulhões,
patos, marrecos, biguás,
ninhal improvisado nas árvores
da ilha, como convém

O convívio com o lago
na praça onde imperam
árvores que me sabem,
que me viram brincar,

tirar retrato, carregar cenário,
brigar e fazer as pazes,
alimentar menino,
passear cachorro...
tudo vem à tona

Na superfície do lago
a história de meus pais,
meus avós, recém-chegados
de Minas, a trabalhar
Na algazarra das maritacas,
a alegria da filharada...

E então me sinto como pedra
que rola, alisa, modela seu viver
e sonha voar,
sem quase sair do lugar

Essa foto, que eu adoro, foi tirada pela Cíntia Nagatomo e apelidada "Céu de Munch".
A grade quebrada já foi restaurada.
Os céus alaranjados voltaram nas tardes de junho.
Venham ver...