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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Raiz


Lá vai a garça voando,
batendo papo na areia,
Me leva contigo, garça,
Me tira de terra aleia, ai, ai...

De vez em quando a poesia
que faz morada na gente
Cisma de sair voando
pras bandas de seiláeu...
Então, a gente que vive
tão ocupado, com pressa
de viver maomenamente
Se apercebe que viver
é tamém catar poesia
este piolho danado
que se esparrama de banda
se os dedos querem garrar

Daí a gente desprende
do ofício mais ordinário
de arear panela, secar chão,
bater prego, comprar bugiganga
E dana a olhar pro céu (meu amor!)
que fica lindo na invernagem...

Espiar na ilha, a árvore
coalhada de garça branca
(e alguns biguás)
faz duvidar da importancia
da gente, tão pequeninha
diante de aguada tão bela
que tinge todas as coisas

Como os meninos no pasto
Correr, descalço na terra
do tododia esquecido
é de muita precisão
Faz da gente suburbano
e feliz de novo,
Amém


Olha pro céu, meu amor é um dos versos do Véi Lua, Gonzagão, que ficam lindos na voz da Ceumar, moça encantada.
Os versos do início foram recolhidos de cantigas populares por Villa Lobos, assim me contou um dia, Gisele Cruz.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

Nanã

A superfície mutável do lago,
cinza-chumbo na chuva, quase sólido,
verde claro ao meio-dia,
alaranjado na tarde,
reflete luzes à noite

E não importa
se o caos impera ao redor
carros, buzinas,
namorados, hip-hop
pipoqueiro e hot-dog

Crianças em meio
aos pit-bulls encoleirados
moças de roupa justa,
homens que correm
(atrás de que, meu Deus?)

O lago impávido, observa
com a placidez de Nanã
Pulam peixes prata,
Tartarugas emergem

Alvas garças, mergulhões,
patos, marrecos, biguás,
ninhal improvisado nas árvores
da ilha, como convém

O convívio com o lago
na praça onde imperam
árvores que me sabem,
que me viram brincar,

tirar retrato, carregar cenário,
brigar e fazer as pazes,
alimentar menino,
passear cachorro...
tudo vem à tona

Na superfície do lago
a história de meus pais,
meus avós, recém-chegados
de Minas, a trabalhar
Na algazarra das maritacas,
a alegria da filharada...

E então me sinto como pedra
que rola, alisa, modela seu viver
e sonha voar,
sem quase sair do lugar

Essa foto, que eu adoro, foi tirada pela Cíntia Nagatomo e apelidada "Céu de Munch".
A grade quebrada já foi restaurada.
Os céus alaranjados voltaram nas tardes de junho.
Venham ver...