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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Brilho


Quando criança, vi de relance,
em um passeio pela mata da Cantareira
as cores brilhantes da cobra coral.
O susto, o fascínio,
a dúvida (falsa ou verdadeira,
venenosa ou não?)
Tudo durou alguns segundos.
Lá também vimos os bugios
que gritavam de muito alto
nos assustando durante a passagem.
O pai nos proporcionou sempre
este contato com a natureza,
viajando, pescando ou apenas
nos levando a perambulações
por lugares que conhecia.
Nada muito planejado,
apenas o lanche pra matar a fome.
A curiosidade nos levou a conhecer
e buscar saber cada vez mais
sobre o vôo dos pássaros, sobre as conchas,
os fósseis trazidos para casa,
os sinais encontrados nas pedras.
Neste sentido, o pai foi cientista,
tanto quanto a mãe, professora
e juntos nos ensinaram como ler a natureza.
Os avós, estes já eram mestres nisso...
Hoje em dia, esta sabença
de encontrar as teias de aranha orvalhadas,
os cogumelos que nascem depois da chuva,
os tapetes de flores na primavera
de saber o nome dos pássaros e das plantas,
as venenosas e as que curam,
as que dão flores ou frutos bons de se comer,
toda a magia escondida num espelho d'água,
os peixinhos minúsculos, girinos, pitus,
tudo está cada vez mais raro
e menos valorizado.
No entanto, há filhos iniciados
e outros virão, por certo...
e ainda temos Manoel de Barros,
com seu coisário de nadezas que nos encanta
Há salvação...
As listras da cobra coral, suas cores,
seguem em meus olhos como um sinal,
uma conexão com a mata,
um portal.

Manoel de Barros é o poeta das coisas ínfimas, invisíveis, essenciais.
O poeta da natureza em seu estado puro.


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Seu Zé tá pensando em boi...



O pai

se vai a cada dia
tentando entender
e ficar
aqui

A cada momento
escuta mais
seus sons interiores
sons antigos
de um tempo bom

O pai
cansou da lida
mas ainda resiste
buscando refúgio
nas mínimas coisas

Aprendeu
que é no trabalho que reside
a honra de um homem
que é assim que tem de ser

Um homem bom
de caráter firme
vive bem-humorado
mas luta contra o tempo

Contra o corpo
que já não o obedece
Contra a impossibilidade
de ser eterno

O pai perdeu, buscando,
alguns de seus muitos amigos,
seus ancestrais
mas mantém sua fé

O pai, que viu no caminho
a onça braba, cobra, sezão,
a fome, a seca, pilares e pedras
Hoje esconde as dores
pra que a gente não sofra

E apesar da rabugice
que se insinua
continua tentando
compreender

A cidade, a gente,
os adolescentes, o tempo,
a tecnologia, o silêncio,
sua sina, ganhos,
perdas

Meu sonho é levar
o pai de volta
ao lar natal
Tenho medo, porém
que ele não reconheça
nada mais de seu

Talvez a viagem
me apavore mais
que ao pai
pois que ele não tem medo

Foi ele
afinal
quem me ensinou
a enfrentar o mar

Seu Zé, José, o Zé Grande, tem mais amigos do que pode contar. É o vô que conserta tudo e que dirige como ninguém. É o homem que gosta de pescar, de estar em família e de cafuné. Que dá risada e procura um docinho depois do almoço. Que nos cobra sempre, fazer o que é certo. A benção, pai!
"Seu Zé tá pensando em boi" é uma frase da canção "Seo Zé", de Carlinhos Brown.

The father goes
each day
trying to understand
and to stay here
At each moment listening more
his interior sounds
old sounds of a good time

The father is tired
of the chore
but he still resists
searching shelter
in the minimum things

He learned
that it's in the work
that inhabits the honor of a man
that this is how it has to be

A good man of firm character
he lives well
but fights
against the time

Against the body
that already it does not obey him
Against the impossibility
of being perpetual

The father lost, searching for,
some of his many friends,
his ancestral ones
but he keeps his faith

The father, who saw in his way
the panther, diseases,the hunger,
dry soil, pillars and rocks
Today hide pains for us not to suffer

Although the bad humour
that sometimes come to him
continues trying
to understand

The city, the people,
the teenagers, the time,
the technology, silence,
his destiny, profits, losses

My dream is
to lead the father
in return
to the native home

I have fear, however
that it doesn't recognize
nothing more
as himself

Perhaps the trip
terrifies me more
that to the father
therefore that he doesn't have fear

He was, after all
who made me learn
how to face the sea