Mostrando postagens com marcador mãe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mãe. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Verão


Solto as tranças
e a mãe vem lavar
o cabelo comprido
sem pressa

Sentadas ao sol
ela desembaraça
e cantarola
uma velha canção

Tudo está bem
a mão percorre os fios
rapidamente:
novas tranças

Calor do sol,
do corpo da mãe
das mãos
no gesto ancestral

Avó, bisavó,
as índias e as negras
herança
discreta vaidade

Uma vez ouvi, comovida
a poeta recitar
A voz falhou
no poema da mãe

Rapidamente secou a lágrima
e recusou num gesto as palmas
_Vim de Divinópolis, pra dar vexame em São Paulo!

Respirou fundo
e recomeçou
desta vez até o fim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Brilho


Quando criança, vi de relance,
em um passeio pela mata da Cantareira
as cores brilhantes da cobra coral.
O susto, o fascínio,
a dúvida (falsa ou verdadeira,
venenosa ou não?)
Tudo durou alguns segundos.
Lá também vimos os bugios
que gritavam de muito alto
nos assustando durante a passagem.
O pai nos proporcionou sempre
este contato com a natureza,
viajando, pescando ou apenas
nos levando a perambulações
por lugares que conhecia.
Nada muito planejado,
apenas o lanche pra matar a fome.
A curiosidade nos levou a conhecer
e buscar saber cada vez mais
sobre o vôo dos pássaros, sobre as conchas,
os fósseis trazidos para casa,
os sinais encontrados nas pedras.
Neste sentido, o pai foi cientista,
tanto quanto a mãe, professora
e juntos nos ensinaram como ler a natureza.
Os avós, estes já eram mestres nisso...
Hoje em dia, esta sabença
de encontrar as teias de aranha orvalhadas,
os cogumelos que nascem depois da chuva,
os tapetes de flores na primavera
de saber o nome dos pássaros e das plantas,
as venenosas e as que curam,
as que dão flores ou frutos bons de se comer,
toda a magia escondida num espelho d'água,
os peixinhos minúsculos, girinos, pitus,
tudo está cada vez mais raro
e menos valorizado.
No entanto, há filhos iniciados
e outros virão, por certo...
e ainda temos Manoel de Barros,
com seu coisário de nadezas que nos encanta
Há salvação...
As listras da cobra coral, suas cores,
seguem em meus olhos como um sinal,
uma conexão com a mata,
um portal.

Manoel de Barros é o poeta das coisas ínfimas, invisíveis, essenciais.
O poeta da natureza em seu estado puro.


domingo, 14 de setembro de 2008

Coffea arabica


O cheiro do café
aroma de casa
conforta a gente
fora dela

Um apetite
tão prosaico
a cultura
do cafezinho

Lembra visita
xicrinhas, canecas
de ágate, pão
crocante, biscoitinhos

Lembra hospitalidade
solidária e sem pressa
amizade brejeira
com muita conversa

Bolo de fubá, pão de queijo
as delícias do lugar
goma de macaxeira
na tapioca branquinha

Que se recheia com doce
salgado, queijo, o que for
e se coloca na mesa
antevendo do outro o prazer

Se o leite for fresquinho
vai junto pra quem gosta
eu prefiro café puro
"o preto que satisfaz"

Doce se for de mãe
amargo, se tiver bolo
com canela, se for sem pressa
e forte o suficiente

Quando o fogão era de lenha
a chaleira 'quentava água
o dia inteiro no fogo
café quando ela fervia

Era um tempo sem tempo
tempo de manga, abacate,
a gente contava o tempo
pela fruta que brotava

Tempo de jabuticaba
de tomar suco de uvaia
tempo de fazer goiabada
que no pão se derretia

Com café as madrugadas
de vigília, pra estudar
pra ficar acordado até tarde
nos velórios, despertar

No acampamento, sem conforto
pro porre do dia seguinte
sempre tinha a mão amiga
que trazia o café quente

Café amargo com sorvete
se não provou não tem idéia
é bom por demais da conta
vaca preta daqui mesmo

Se a gente mede a cultura
pela arte e pelo costume
se a culinária tem charme
o cafézinho tem tudo

É negro que nem a gente
servido em qualquer lugar
bebida de alma, aquece
perfuma, consola, é lar

A frase "O preto que satisfaz" foi escrita por Gonzaguinha, cantada pelas Frenéticas e dizia respeito ao feijão, outra de nossas riquezas.
Luís da Câmara Cascudo escreveu um clássico sobre a cultura culinária brasileira. Nina Horta, que também adoro, escreve delícias...
A foto é da Pousada dos Anjos, MG, onde é servido o café da manhã no fogão à lenha, com a simpatia do Toninho e da Vania...recomendo!

The coffee's smell
house's aroma
it comforts people
when far from home

An so prosaic appetite,
our coffee culture
It remembers visits,
and little cups, mugs of ágate,
hot bread , cookies

It remembers hospitality
solidary and without haste
sympathetic friendship
with much colloquy

Corn cake ,
White cheese's bread
our home delight's
macaxeira gum
to a white tapioca

That it is stuffed with candy
salty, cheese, whethever
It's place in the table
foreseeing the other's pleasure

If milk is cold
it's good together for those who appreciate
I prefer pure coffee
" the satisfying black one"

Witn candy if comes from mother
bitter taste, if we have cake
with cinnamon, if we are not hurry
and ever sufficiently strong

When the stove age of firewood
the kettle was the entire day at the fire
keeping hot water
there was coffee, when it boiled

It was a time without time
time of mangos, avocados,
people counted the time
for the fruit that sprouted

Time of
jabuticaba

to take
uvaia's
juice time
to make
goiabada

that in the bread if it melted

With coffee the dawns
of vigil, to study
to be waked up night away
when something died, to resist

In the encampment, without comfort
To headache of the following day
it always had who friendly help
by bringing the hot coffee


Coffee bitter, taste with ice cream
if you didn't prove, doesn't have idea
is good besides the point
our coffeshake
...

If people measures the culture
by the art and by the customs
if the culinary has charm
The coffee has everything

It is black like our people
served in any place
soul drink, heats it perfumes,
it consoles, it is home

domingo, 7 de setembro de 2008

Depoimento


Quem é o cavaleiro que vem lá de Aruanda?

Atendeste bem cedo ao chamado da ancestralidade

Já era escolhido, já ouvia

O que outros não

Voz doce, voz mãe, voz brejeira

Foi temperando pela vida afora

Ouvindo rádio

Deu peso e cor, experimentou, tocou, tocou...


Ainda se diverte feito menino

Quando arrebenta corda de violão

E consegue trocar enquanto canta

Fica intrigado quando faz chorar (e sempre faz)

Aos homens e mulheres


Tem saudade das ruas de terra

Terras distantes

Saudades de sei lá.

É índio

É preto

É sinhozinho e não é.


Tem proteção, viu, menino?

N.Sra. do Rosário dos Homens Pretos,

São Benedito, Santo Antoninho,

Santos do candomblé,

Nhanderu, Tupã, Ceuci,

Encantados da floresta,

Clã dos Pássaros,

Todos Erês,

Cosme, Damião, Doun

E Espíritos guardiães.


A voz

Cuida dela

É a chave.

Agradece

A graça, o presente, o benefício

De ser luz para muita escuridão

E usa a escuridão que há

Porque tudo vibra

Tudo gera (Eh, Minas!)

Sê feliz!


Este depoimento, escrito faz tempo para o pai do Antonio, chegou até ele no momento certo e nos tornou amigos. A fala da alma é sempre verdadeira.


domingo, 6 de julho de 2008

Mãe


Dói um pouquinho
deita um pedacinho
chora um bocadinho

vida mais ou menos
sonho grande, imenso
vôo ensaiado

mão atarefada
pé descalço, farpa
corpo em movimento

perfume, brisa, tempo
pluma, céu, desejo
doce encantamento

rodamoinho
flor, passarinho
colo quentinho

saudade...

Pra Valéria Marchesoni, que é mulher, mãe e sente saudade.