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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tempero da vida



Por que é que o doce
pra ser melhor
tem que ter uma pitada
do sal do mar?

por que o ácido
misturado ao doce

cria sabores além


e o açúcar moreno

tem sabor da terra
quando chove chuva fina?


Por que será

que o jasmim manga
cheira tanto...
(por que será que guardo um deles,
seco, sem odor?)


que o pau casca
de canela
dá sabor
e o gengibre cura,
tem alma?

se o mel
vem
da entranha
do inseto,
espesso


se a semente
da pimenta
é que faz o ardido


se a essencia
guarda o espírito das ervas

se eu nem sei
quando dói,
o doce que eu quero mais...
pão de ló da vó Kita,
queijo com goiabada,

cocada mole,
o strudel trabalhoso,

o sonho,

o sonho,
o sonho...


"o coração amolecido como figo na calda"


A frase entre aspas é do poema Chorinho Doce,de Adélia Prado, eterna inspiração. O título é de um filme franco-grego, lindo e imprescindível...

sábado, 13 de junho de 2009

Te caitutera amocariu



Um acalanto

é um som
que vibra
num tom diferente

feito pra ninar
pra fazer dormir
soa grave,
mas leve

acalentar é semear
sonhos bons

às vezes tristes
as cantigas,
lembrança de um tempo
que mora além

um tempo bom
que desejamos reter
em qualquer língua
português, francês, tupi

na voz profunda
do mestre Dorival
pra Nana ninar

no timbre intrigante
da Salmaso
afinadíssima,
mãe da Terra

no tom dos pais
e mães amorosos
um vínculo inesquecível

nos leva a todos
pro colo
de Deus

O título refere-se à canção Amocariu, entoada lindamente por Nilson Chaves.
Acalanto é um clássico de Caymmi e foi composta pra adormecer a filha.
Salmaso canta Mariposa, no novo álbum de Francis Hime, além das participações deliciosas em Canções de Ninar, do grupo Palavra Cantada.
A foto foi tirada em noite de lua cheia na Pousada Natureza, em Massaguaçu-SP.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Paisagem


Quando a gente se lança
no vazio

Parece que nunca mais
acaba
de cair

Sonho recorrente

de quando se está crescendo

caindo... caindo...

sem fim

Após a queda

só o chão

"Do chão não passa..."

como se diz por aí

E o chão, era de se esperar

dura realidade

mas apara

ampara o sonhador

Quando a gente se lança

com propósito certo

ao descer, sorve a paisagem

ao cair, atinge o alvo


Do chão não passa...

sábado, 20 de setembro de 2008

Inconsciente


E se de repente o sonho
é mesmo a gente em cada detalhe
a pedra, o ogro, a flor, a queda
são tudo a gente

O olho, a mão, o corredor,
o vulto, a vela, o animal
são tudo mesmo a gente
tudo a gente mesmo

Se é assim que o sonho aflora
se for assim então
a gente é gente, é flor, é pedra, animal
somos nossa dor e salvação

Nossa queda e aflição
nossa mão na hora H
nosso escorregar
a mãe, o desconhecido, o horror

A água, o mar, se somos nós,
se nos banhamos lá
quando ninguém está a olhar
se unimos o divino e o satanás

Basta girar a chave, ver o corte sangrar,
a roupa despir, o lábio apertar,
esquecer a dor, aprender a ler
sina e sinais, sombra e assombração

De'star que aprendo a ler
Procuro minha mão no sonho
bebo o copo com água,
anoto lembranças no papel

Escuto D. Juan e outros xamãs
estudo Dr. Jung,
saúdo os gaviões
medito no trânsito

Mesmo assim,
se sou eu, sou eu, se sou eu,
banho de folha e de sal,
escalda-pés não vão curar

O que a lágrima destampa
o que o mar salga e o rio adoça
A sede da mulher-peixe,
a fome descomunal

Nada vai suavizar
a crueldade que dorme
e sai às vezes
pra passear


D. Juan é o personagem fascinante citado nos livros de Carlos Castañeda.
Carl Gustav Jung é fonte.
Sonhar é essencial.
Foto de Cauê Mathias.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Maluca



A gente finge
que não sabe
que não vê

A gente sonha
que é outro
ou que é você

A gente esquece
a chave
o carro
a tv

A gente espalha
que vai fazer
e acontecer

Publica tudo
sem ter medo
de dizer

A gente acorda
e não lembra
o que sonhou

A gente improvisa
não faz
o que planejou

Mas dá risada
quando vê
que funcionou!


Às vezes, tudo de que precisamos é rir de nós mesmos...
A geladeira é uma Brastemp, o stencil foi feito pelo Cauê e mostra a Twiggy, primeira modelo magrela na passarela.


We pretend
that we don't know
that we don't see

We dream
that we are other
I'm you, not me

We forget
the key
the car
the tv

We talk to everyone
that we wil do
what we need

We publish everything
without feeling
any fear

We wake up
and don't remember
what we dreamed

We improvise
and don't do
what we planned

But we smile
When we see
that it just worked!


Sometimes we just need to laugh of ourselves...
The Brastemp refrigerator was painting with stencils cutted by Cauê. The image shows Twiggy, 60's thin top model.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quando

Revelação
se dá
quando
no silêncio
grita
muda
uma Verdade

Poesia
se dá
quando
aparece
ilesa e nua
a carne
da Palavra

Canção
se dá
quando
a ousadia
rompe o ar
vibrando Som

Gorjeio
se dá
quando
distraído
o Pássaro
assovia

Anseio
se dá
quando
o murmúrio
cego
cambaleia

Desejo
se dá
quando
não cabe
no corpo
essa Vontade

Amor
se dá
quando
a Morte
não faz mais
que companhia

Fatalidade
se dá
quando
o inevitável
atropela o Tempo

Sonho
se dá
sempre
que se permite
o Possível
A aquarela mostra um guerreiro, com a pintura tradicional do seu povo, que vai do rosto até os pés. Nos ritos de passagem, u
tilizavam garras de onça para a escarificação e jenipapo, para colorir e cicatrizar. Realizá-la foi uma jornada de introspecção e de diálogo com a água. Está no livro "O Sinal do Pajé", da Editora Peirópolis.

domingo, 6 de julho de 2008

Mãe


Dói um pouquinho
deita um pedacinho
chora um bocadinho

vida mais ou menos
sonho grande, imenso
vôo ensaiado

mão atarefada
pé descalço, farpa
corpo em movimento

perfume, brisa, tempo
pluma, céu, desejo
doce encantamento

rodamoinho
flor, passarinho
colo quentinho

saudade...

Pra Valéria Marchesoni, que é mulher, mãe e sente saudade.