E se de repente o sonho
é mesmo a gente em cada detalhe
a pedra, o ogro, a flor, a queda
são tudo a gente
O olho, a mão, o corredor,
o vulto, a vela, o animal
são tudo mesmo a gente
tudo a gente mesmo
Se é assim que o sonho aflora
se for assim então
a gente é gente, é flor, é pedra, animal
somos nossa dor e salvação
Nossa queda e aflição
nossa mão na hora H
nosso escorregar
a mãe, o desconhecido, o horror
A água, o mar, se somos nós,
se nos banhamos lá
quando ninguém está a olhar
se unimos o divino e o satanás
Basta girar a chave, ver o corte sangrar,
a roupa despir, o lábio apertar,
esquecer a dor, aprender a ler
sina e sinais, sombra e assombração
De'star que aprendo a ler
Procuro minha mão no sonho
bebo o copo com água,
anoto lembranças no papel
Escuto D. Juan e outros xamãs
estudo Dr. Jung,
saúdo os gaviões
medito no trânsito
Mesmo assim,
se sou eu, sou eu, se sou eu,
banho de folha e de sal,
escalda-pés não vão curar
O que a lágrima destampa
o que o mar salga e o rio adoça
A sede da mulher-peixe,
a fome descomunal
Nada vai suavizar
a crueldade que dorme
e sai às vezes
pra passear
D. Juan é o personagem fascinante citado nos livros de Carlos Castañeda.
Carl Gustav Jung é fonte.
Sonhar é essencial.
Foto de Cauê Mathias.