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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Verão


Solto as tranças
e a mãe vem lavar
o cabelo comprido
sem pressa

Sentadas ao sol
ela desembaraça
e cantarola
uma velha canção

Tudo está bem
a mão percorre os fios
rapidamente:
novas tranças

Calor do sol,
do corpo da mãe
das mãos
no gesto ancestral

Avó, bisavó,
as índias e as negras
herança
discreta vaidade

Uma vez ouvi, comovida
a poeta recitar
A voz falhou
no poema da mãe

Rapidamente secou a lágrima
e recusou num gesto as palmas
_Vim de Divinópolis, pra dar vexame em São Paulo!

Respirou fundo
e recomeçou
desta vez até o fim.

domingo, 25 de abril de 2010

Pâo e poesia



Vaidade de vaidades, tudo é vaidade...

Me disseram que blog é vaidade

Deve ser...
Nestes tempos de pouco pão
e mais minguada poesia
a procura recorrente é por
interlocução
Inteligente, se possível...
Silenciosa, mas doce.
Volto aqui depois de tempos
contando sobre o quintal,
a casa, de novo...
Nossa casinha amarela
que nem bolo de fubá
está quase pronta.
Já tem recebido visitantes:
beija-flores, rosas,
gafanhotos verdes,
que os índios chamam tucuruvi
e a gata branca, manhosa
que requer atenção constante
e adora um cafuné.
Vela acesa na janela,
flor no vaso,
pão na mesa, quentinho.
O Espírito Santo de papel machê,
a Iemanjá cercada de frô,
mosaicos de caquinho
e duas cadeiras, ainda por terminar...
Família, âncora da gente.
Visita do pai, constante,
que vem vigiar a obra
trazendo suas ferramentas e
tapando todos os buraquinhos.
Visita da mãe, severa,
de olho em cada cantinho,
querendo organizar a vida
de gente tão desorganizada!
A confusão de pedreiro e pintor,
gente que de vez em quando some
e quando aparece, trabalha.
Os filhos, o amor,
encontrando seu espaço na confusão.
O amor fazendo seu espaço.
As formigas, joaninhas,
as folhas no quintal,
vida diária, lida diária, rotina,
que agora acho tão boa!
Não vejo a hora de ter aqui
amigos queridos
pra prosear sem pressa
tomar chá, comer bolo,
fazer fuxico e canção.
Assim que acabar eu conto,
se bem que, de verdade,
a reforma de dentro da gente
não termina nunca... né mes?

O título da postagem é o nome de uma canção de Moraes Moreira.
A citação inicial é atribuída ao Rei Salomão.
A foto é do Cauê.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quando

Revelação
se dá
quando
no silêncio
grita
muda
uma Verdade

Poesia
se dá
quando
aparece
ilesa e nua
a carne
da Palavra

Canção
se dá
quando
a ousadia
rompe o ar
vibrando Som

Gorjeio
se dá
quando
distraído
o Pássaro
assovia

Anseio
se dá
quando
o murmúrio
cego
cambaleia

Desejo
se dá
quando
não cabe
no corpo
essa Vontade

Amor
se dá
quando
a Morte
não faz mais
que companhia

Fatalidade
se dá
quando
o inevitável
atropela o Tempo

Sonho
se dá
sempre
que se permite
o Possível
A aquarela mostra um guerreiro, com a pintura tradicional do seu povo, que vai do rosto até os pés. Nos ritos de passagem, u
tilizavam garras de onça para a escarificação e jenipapo, para colorir e cicatrizar. Realizá-la foi uma jornada de introspecção e de diálogo com a água. Está no livro "O Sinal do Pajé", da Editora Peirópolis.