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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Modo de espera

"Estou pousado em mim
Igual que formiga
sem rumo."

Só mesmo o poeta
poderia definir assim
só mesmo o homem-terra
que vê nas águas refletido o céu
que enxerga nas minúcias
o que atropelamos

O inseto mais diligente, perdido
pode outra imagem ser tão precisa?
A angústia de ensimesmar-se
Estar em si, desencontrado do entorno
Estar além, desencontrado de si

Cada vez mais acredito
na observação como origem
das mais belas obras
A observação atenta e minuciosa,
o olhar poético, encantado, encantador,
sobre a natureza,
simples,
misteriosa,
absoluta

A natureza da qual, esquecemos,
fazemos parte
Como fazem parte do corpo
a cabeça
e o coração.

" A normalidade é assombrosa.
Sua puerícia é mesmo carne de poesia."

As citações são de Manoel de Barros e Adélia Prado, respectivamente, nas obras: Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo e Manuscritos de Felipa. Hoje estou formiga.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Brilho


Quando criança, vi de relance,
em um passeio pela mata da Cantareira
as cores brilhantes da cobra coral.
O susto, o fascínio,
a dúvida (falsa ou verdadeira,
venenosa ou não?)
Tudo durou alguns segundos.
Lá também vimos os bugios
que gritavam de muito alto
nos assustando durante a passagem.
O pai nos proporcionou sempre
este contato com a natureza,
viajando, pescando ou apenas
nos levando a perambulações
por lugares que conhecia.
Nada muito planejado,
apenas o lanche pra matar a fome.
A curiosidade nos levou a conhecer
e buscar saber cada vez mais
sobre o vôo dos pássaros, sobre as conchas,
os fósseis trazidos para casa,
os sinais encontrados nas pedras.
Neste sentido, o pai foi cientista,
tanto quanto a mãe, professora
e juntos nos ensinaram como ler a natureza.
Os avós, estes já eram mestres nisso...
Hoje em dia, esta sabença
de encontrar as teias de aranha orvalhadas,
os cogumelos que nascem depois da chuva,
os tapetes de flores na primavera
de saber o nome dos pássaros e das plantas,
as venenosas e as que curam,
as que dão flores ou frutos bons de se comer,
toda a magia escondida num espelho d'água,
os peixinhos minúsculos, girinos, pitus,
tudo está cada vez mais raro
e menos valorizado.
No entanto, há filhos iniciados
e outros virão, por certo...
e ainda temos Manoel de Barros,
com seu coisário de nadezas que nos encanta
Há salvação...
As listras da cobra coral, suas cores,
seguem em meus olhos como um sinal,
uma conexão com a mata,
um portal.

Manoel de Barros é o poeta das coisas ínfimas, invisíveis, essenciais.
O poeta da natureza em seu estado puro.