domingo, 2 de maio de 2010

Aconchego


Um binóculo pra observar pássaros:
trocentos reais.
Um livro sobre as aves tropicais:
outros tantos.
Alimentar um beija flor na palma da mão...
Não tem preço.

O beija flor foi uma das formas que Ñanderu, o Pai Primeiro do povo Guarani, escolheu para visitar a Terra e sua criação. Honra e agradecimento ao Pai, pela graça de sua companhia.
A foto é da Regina, em visita ao litoral norte paulista.

domingo, 25 de abril de 2010

Pâo e poesia



Vaidade de vaidades, tudo é vaidade...

Me disseram que blog é vaidade

Deve ser...
Nestes tempos de pouco pão
e mais minguada poesia
a procura recorrente é por
interlocução
Inteligente, se possível...
Silenciosa, mas doce.
Volto aqui depois de tempos
contando sobre o quintal,
a casa, de novo...
Nossa casinha amarela
que nem bolo de fubá
está quase pronta.
Já tem recebido visitantes:
beija-flores, rosas,
gafanhotos verdes,
que os índios chamam tucuruvi
e a gata branca, manhosa
que requer atenção constante
e adora um cafuné.
Vela acesa na janela,
flor no vaso,
pão na mesa, quentinho.
O Espírito Santo de papel machê,
a Iemanjá cercada de frô,
mosaicos de caquinho
e duas cadeiras, ainda por terminar...
Família, âncora da gente.
Visita do pai, constante,
que vem vigiar a obra
trazendo suas ferramentas e
tapando todos os buraquinhos.
Visita da mãe, severa,
de olho em cada cantinho,
querendo organizar a vida
de gente tão desorganizada!
A confusão de pedreiro e pintor,
gente que de vez em quando some
e quando aparece, trabalha.
Os filhos, o amor,
encontrando seu espaço na confusão.
O amor fazendo seu espaço.
As formigas, joaninhas,
as folhas no quintal,
vida diária, lida diária, rotina,
que agora acho tão boa!
Não vejo a hora de ter aqui
amigos queridos
pra prosear sem pressa
tomar chá, comer bolo,
fazer fuxico e canção.
Assim que acabar eu conto,
se bem que, de verdade,
a reforma de dentro da gente
não termina nunca... né mes?

O título da postagem é o nome de uma canção de Moraes Moreira.
A citação inicial é atribuída ao Rei Salomão.
A foto é do Cauê.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Benefício



"Diante deste abismo,
volto o vídeo ao início..."

Fitar o abismo traz sensações várias
o ensejo de se lançar
o medo de se perder
o fascínio pelo desconhecido

Durante muito tempo
tentei assistir ao filme Thelma e Louise
Nunca conseguia ir até o fim
Me dava um desespero em certo trecho
e eu desistia

Mas tentava novamente
em outra ocasião
me dava crise de choro
e eu não sabia por que

Um dia, acordei corajosa
e desejei
terminar de ver
o que já previa
o fim que não é fim

Entendi
o que já intuía
que todo fim é um recomeço
que é preciso amar o abismo
para voltar ao início

Entendi também
o que temia
não era o abismo
era o processo
mas que ele é irreversível

"A flecha, uma vez, lançada não volta atrás"


sábado, 5 de dezembro de 2009

Brasileiro de Almeida



Foi Antonio Brasileiro
quem soprou esta toada
que cobri de redondilhas
pra cumprir minha jornada
e com a vista enevoada
pelo inferno e maravilhas...

Mestre Antonio escreveu sobre a casa
cantou também os urubus e outros pássaros
nos deu as canções mais lindas

de ouro e marfim

Amou os animais
e plantas
e crianças
e todas as mulheres do mundo

Amou sobretudo a musa
a música
o que a voz entoa
e o instrumento ecoa

Nos deixou de presente
tudo quanto é lindo
a sabiá, a roseira,
o rio, o Rio...

O pato preto, o camiranga,
em melodias tão lindas
que dá vontade de chorar...
ou Borzeguim, de dançar

Com Maria Luiza,
com Elis,
com Miucha
e seu coral de vozes límpidas

O piano inesquecível
O charuto, o chapéu,
A prosa solta, sem pressa,
Como quem desata nós

Se fizer bom tempo amanhã,
como diria o baiano,
Eu vou, Mestre Jobim.
Mas se, por exemplo, chover...


As frases em itálico são, respectivamente, de Chico Buarque, Gilberto Gil e Dorival Caymmi.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maestro soberano, tinha um humor afiadíssimo. Certa vez plantou tinhorão na entrada da sua casa, pra provocar o crítico José Ramos Tinhorão, que o atacava constantemente. Diz a lenda que, ao voltar do bar, antes de entrar em casa, aguava as tais plantinhas...
A foto é da Regina, a mana quase alemã...


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tempero da vida



Por que é que o doce
pra ser melhor
tem que ter uma pitada
do sal do mar?

por que o ácido
misturado ao doce

cria sabores além


e o açúcar moreno

tem sabor da terra
quando chove chuva fina?


Por que será

que o jasmim manga
cheira tanto...
(por que será que guardo um deles,
seco, sem odor?)


que o pau casca
de canela
dá sabor
e o gengibre cura,
tem alma?

se o mel
vem
da entranha
do inseto,
espesso


se a semente
da pimenta
é que faz o ardido


se a essencia
guarda o espírito das ervas

se eu nem sei
quando dói,
o doce que eu quero mais...
pão de ló da vó Kita,
queijo com goiabada,

cocada mole,
o strudel trabalhoso,

o sonho,

o sonho,
o sonho...


"o coração amolecido como figo na calda"


A frase entre aspas é do poema Chorinho Doce,de Adélia Prado, eterna inspiração. O título é de um filme franco-grego, lindo e imprescindível...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Perneta



O Saci esteve conosco
brincando na tarde quente
circulou até de noite
no sobrado secular

Todos viramos meninos
de novo a nos assombrar
com as histórias de susto e morte
e algumas de gargalhar

Batendo os pés no terreiro,
pra todo mal espantar
catira, ciranda em roda
consagramos o lugar

Salve Dedé, a guerreira
que carregou o negrinho
pra dentro da nossa vida
Salve Bosco, o visionário
que abriu suas portas
pro quintal da nossa infância

Salve, amigos queridos
uma vez mais, o Saci
teimoso que é

desafiou as bruxas
enganou a Morte
resistiu!

A Festa do Saci existe há 4 anos, mas há 6, a querida amiga Débora Kikuti iniciou a cruzada para fazer do nosso neguinho uma unanimidade, em lugar das abóboras do capitalismo selvagem... Este ano foi especialmente importante, pois teve a participação de muitos outros, trazendo sua contribuição com diversas manifestações da cultura popular brasileira, no solar centenário da Casa dos Cordéis.
A foto é do fogão de lenha da dona Candinha, antes da reforma...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De morar




Ô, beija flor,
toma conta do jardim

Vai buscar Nossa Senhora
pra tomar conta de mim...

Sinhá Rainha,
Tua casa cheira
Cheira cravo e rosa
e flor de laranjeira

Ô, beija flor
toma conta do jardim
Vai buscar Nossa Senhora
pra tomar conta de mim...

Levei pro Rosário
um galho de manjericão
E ofereci pra santa
junto com o meu coração

A casa se renova
para novos habitantes
crescemos
já não cabemos nela

Estamos mais sábios
ainda inquietos
em busca de espaço
para a criação

a mesa, o pão
a tela, o bordado
o som, a cantiga
a flor, a união

começa agora
um novo tempo
novas sementes
a germinar

Benedito, Do Rosário,
Francisco, Antoninho,
Miguel e os anjos
sejam bem vindos...

Depois de longo tempo, volto aqui...
Às vezes a noite escura da alma é mais longa... mas o dia prevalece.
A canção inicial é tradicional de Minas Gerais, em louvor à Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que pode ser ouvida em linda versão com Déa Trancoso, no cd "Tum, tum, tum".
A foto é da Maria sem vergonha, abundante por aqui... Impatiens, para os botânicos, por causa das sementes que explodem ao toque.