quinta-feira, 19 de março de 2009

Visão


caracara
carcará
cara
cará
muitos
de uma vez

muitos
em sequencia
carcarás
na cidade

em meio
ao caos
seu vôo

minutos
antes
da chuva

no escuro
que se
anunciava

seu vôo
certeiro,
brincavam

vejo gato
cachorro
urubu
e pardal

mas o gavião
me vê
me encontra
antes
que eu a ele

assobia
chama
eu ouço
entendo

me protege
da chuva
do escuro
me guia

caracara
carcará
cara
cará

clã dos pássaros
me lanço
grito
e vôo

terça-feira, 3 de março de 2009

Sinhá Olímpia


Nhá Olímpia era fidalga
na Vila Rica de outrora
Desencantou-se aos quarenta
Virou figura folclórica

Andarilha das sete saias
sabia muitas histórias
Sua foto descorada
em Ouro Preto pairava

Sua história foi cunhada
Emaranhada entre tantas
mulheres fortes das Minas
Gerais, de ouro e prata

No caldeirão do vale
Onde a névoa faz pousada
De manhã cedo e à tardinha
Nhá Olímpia reinava

De chapéu de abas largas
com fitas, plumas, barbante
Com sua cestinha nos braços
e um cajado, imponente

Irritava os poderosos
De seus segredos ciente
Inventava outros tantos
e os espalhava, contente

Foi mandada a Barbacena
Pro hospício foi mandada
Tomar choques e remédios
Suplício pra ser calada

Voltou doída e mendiga
mas não perdeu sua aura
de fidalga de outras eras
princesa trancafiada

Aos estudantes, turistas
e passantes. reclamava
alimento e roupa quente
que com pobres compartilhava

Em troca suas histórias
correram mundo e fronteira
a figura colorida
a fantasia certeira

Até na escola de samba
Nhá Olímpia virou moda
Quando morreu, fez-se mito
As sete saias de roda

N.Sra. do Rosário
Vela por sua figura
que ainda ronda Ouro Preto
cajado na pedra dura

Aos dezoito anos, vi a foto de D. Olímpia numa loja em Ouro Preto. Aos vinte, descobri quem fora aquela mulher. Hoje volto a ela, inspiração para a loucura e o fogo criativo. Para saber mais, leia Sinais de Vida no Planeta Minas, de Fernando Gabeira. A foto é de Ruy Bittencourt e foi tirada em 17 de junho de 1965, disponibilizada no blog de Emanuel Valle Bittencourt em http://br.olhares.com/dona_olimpia_autoria_ruy_bittencourt_foto61129.html

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Yaguarê Yamã


"Vamos chamar o vento,
vamos chamar o vento..."


As flautas repousam
herdeiras sagradas
na Casa dos Homens

Um sopro de vida
coluna soante
A flauta acorda
vibra, desdobra o ar

Lá fora
taboca, taquara
bambuzal, ninho, floresta
sacodem no vendaval

Por um momento infinito
o ruído é assustador
enquanto a flauta passeia
entre monótonos tons

Cessa a flauta,
cessa o vento,
tudo cala de uma vez

Não é festa, não é nada
É só o curumim
bulindo, brincando
de Tupana na Casa dos Homens

A frase entre aspas é da canção de Dorival Caymmi, que tem o mesmo nome.
Tupana e Tupã são a mesma divindade.

Layed down are the flutes,
sacred heritage,
at the Man's House

Suddenly, a life's blowing

at the sounding column
wake up a flute
that vibes the air around

Out there,
the bamboo trees
and all the forest leaves
dance along the wind

At this infinite moment
the noise is terrifying
though the flute keeps sounding
its repetitive sound

The flute stops
and so the wind
everything turns quiet

It is no party, it's nothing at all
but only the curumim
playing, touching, dreaming
alone at the Man's House.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Insetos

Há pessoas que preferem fotografar portas fechadas
Trancas, cadeados,
Já fui uma delas
Me encantam as construções antigas
ferrolhos, placas, dobradiças

Hoje as janelas abertas me chamam a atenção
eu prefiro deixar entrar
todos os insetos...

O texto em itálico refere-se a uma canção de Chico - Janelas Abertas número 2.
A janela em questão é da Pousada Natureza, em Massaguaçu-SP, delícia de construção ao pé da cachoeira... obrigada, Trudy, pela hospedagem e carinho.

There are people who prefer to photograph closed doors
locks, crossbars, serrures
I was one of them
I love the antique buildings
eyebolts, plates, hinges

Today, the open windows atracts my attention
I prefer to let
all the insects come in...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Irmão

No assobio do pinhé
tem um alerta
e um chamado

Grito estridente
estremece
arrepia

Quem no solo
se vê
só, sem defesa

Vôo alto, leve,
correntes de ar quente
prenúncio de tempestade

Passarinhos ressabiados
ninhos a proteger
do predador e da chuva

Asas abertas
cabeça ereta
vôo rasante: a presa

O bico cortante,
na garra, o bicho
morto

Tufos de penas eriçadas
desaba a tempestade
mais nenhum pio

Carrapateiro, pequena ave
sinal na língua do pajé
cocar de pena rajada

Bela brutalidade
força da natureza
recordação

Pinhé grita,
respondo:
Aqui!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Sina

Voz de mulher
de mãe
tambor na boca
doçura e força

Vozes confortando
a tragédia
Vozes se unindo
contra o caos

Organizando,
se armando
e amando
o ofício

Mulheres brabas
e gentis
Eleitas pelo céu
abençoadas com pulmões
e ar, entoando

Trazendo a paz
pra dentro de nós
Vozes em busca
de sentido...
sina de cantador

Vozes que tocam
Toques que voam
Vôo que chega
nos corações

Mulheres
quem duvida
do vosso poder?

No dia 06 de dezembro, num esforço para ajudar as vítimas das enchentes em Santa Catarina, realizou-se no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, a Virada Cultural de Solidariedade, onde artistas se apresentaram e os ingressos eram doações para as comunidades atingidas. Assisti aos shows de Ceumar e Badi Assad e me atingiu em cheio a força destas duas mulheres. Aline, obrigada pela companhia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Guarani


Quando o vento vem rodar
Nas palhas, penas e folhas
Quando vem, carinho ligeiro
grudar poeira vermelha
nos cabelos, penas, pele
Com gaviões e urubus

a gente voa

É gente e voa


Quando o cheiro da chuva

levanta o cheiro da terra

embriaga o capinzal

Pés-de-conta pingam
brota água do barranco
a gente chapinha
Vira peixe e brilha


Se o vendaval seco bole

Se a chuva acende o brincar

O fogo, então, quem dirá?


Tupana alegre, se junta

com o velho e sábio avô

Ao pé do fogo cirandam

voz, histórias e lembranças

além do tempo e lugar


Tatá, o fogo, conhece

o que há prá conhecer

A gente acende por dentro

escuta a fala do Tempo

É brasa na escuridão