sábado, 13 de junho de 2009

Te caitutera amocariu



Um acalanto

é um som
que vibra
num tom diferente

feito pra ninar
pra fazer dormir
soa grave,
mas leve

acalentar é semear
sonhos bons

às vezes tristes
as cantigas,
lembrança de um tempo
que mora além

um tempo bom
que desejamos reter
em qualquer língua
português, francês, tupi

na voz profunda
do mestre Dorival
pra Nana ninar

no timbre intrigante
da Salmaso
afinadíssima,
mãe da Terra

no tom dos pais
e mães amorosos
um vínculo inesquecível

nos leva a todos
pro colo
de Deus

O título refere-se à canção Amocariu, entoada lindamente por Nilson Chaves.
Acalanto é um clássico de Caymmi e foi composta pra adormecer a filha.
Salmaso canta Mariposa, no novo álbum de Francis Hime, além das participações deliciosas em Canções de Ninar, do grupo Palavra Cantada.
A foto foi tirada em noite de lua cheia na Pousada Natureza, em Massaguaçu-SP.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

memorando


Quando a tarde cai
Onde o meu pai
me fez e me criou
Ninguém vai saber
que dor me rói,
que foi
e aqui ficou...

Que foi feito de nós?
Os eleitos
escolhidos a dedo
pra revolver o mundo

Que é feito dos que
iam morrer aos 21
deixando o rastro de sua
meteórica passagem ?

A geração sanduíche
entre a ditadura e a AIDS
que amou colorido
apesar de todas as marcas?

Que enterrou seus mortos
de sexo, drogas e rock'n roll
na cova rasa dos indigentes
e cimentou a passagem
das hoje ilustres autoridades

O que foi feito, deverá?
As atrocidades, quem vê?
O choro doído, ninguém ouve?
Por detrás da escrivaninha, o paletó
Dentro do paletó, o silêncio.

O texto em itálico é um trecho de Santa Clara, padroeira da televisão, do álbum Circuladô de Fulô de Caetano Veloso.
Amizade colorida era uma expressão comum nos anos 80, significando relacionar-se sexualmente com amigos (as), independente de compromisso.
O que foi feito devera foi cantado por Elis no clássico Clube da Esquina. A imagem me lembra o mapa da América Latina.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O retrato do Artista


"O retrato do artista quando moço
não é promissora, cândida pintura
É a figura do larápio rastaquera
Numa foto que não era para a capa"

A idéia me veio

enquanto picava a escarola
uma vontade louca
de me intitular Artista
Dizer: _ Nós, os artistas...
como nunca ousei

Que artista é Chico Buarque,
E Adélia Prado, Manuel de Barros,
todos os mestres, sabedores
do ritmo que as palavras guardam,
de seus segredos...

Artistas da fome, Kafkas,
artistas do pincel
e da caneta tinteiro,
do carvão e do rio

Vontade de dizer à edilidade
umas verdades
De ser Artista e pronto
sem medo
Cantando e inventando
um novo bailado

_ A velhinha enlouqueceu!
_ A escarola vai queimar!
Eu, dançando, cantando
e pintando e bordando,
como querem Baco e Deus


O Retrato do Artista quando Coisa é o livro de Manuel de Barros, que abriu o jorro...
A foto da capa é a música de Chico Buarque que abre o texto e não me sai da cabeça... encontrada no álbum Paratodos.
O Artista da Fome é um livro de Kafka, que li faz muito tempo...

O Ale Artista fez uns desenhos duca com caneta tinteiro...
Escarola refogada com azeite, alho e tomate é bão demais, sô!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Verde


O sinal
luminoso
já não dá passagem

O silêncio impera
onde antes
a música se ouvia

O tímpano arde
com os sons urbanos

Repetidos,
repetidos

Já não se sabe
se ouviu ou não

Um grito
um sussurro,
um piado

Quer saber?
Só perguntando...

o máximo que se ganha
é o silêncio
ou um não.



A foto é do Cauê.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Exercício

O perdão bateu à porta
Abriu as comportas
cessou as intrigas

O perdão pediu passagem
a quem não pede desculpas
fez chorar, fez sentido,
fez refletir, o perdão

Derrubou o muro alto
que separava dois mundos
que isolava a palavra
e perpetuava o não

Desculpar é tarefa
para uma vida inteira
martelar o ferro em brasa
até domar a matéria

É exercício sem trégua
como o é pedir perdão
os dois lados envolvidos
sempre com suas razões

Nem vale fingir,
ignorar a dor funda
o perdão pede a verdade
sem a qual nada desperta

quem não perdoa, mata
o que em potencial
poderia ser, não é
mas tem chance, se puder

o perdão pediu licença
e desmanchou em água e sal
duas almas que se viram
sem parede, cerca ou não

sábado, 4 de abril de 2009

Xeque

The answer, my friend
is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind

Respostas não são importantes
As perguntas são
São elas que destampam
silencio reprimido
mágoa acumulada
angústia recorrente

Perguntas curam
se verdadeiras
na hora certa, incisivas

Se a inspiração vem
do ar que respiramos
se a luz irradia
de um ponto entre os olhos
se a dor que machuca,
do centro do umbigo
e o amor que transborda,
do sangue que corre

as perguntas certas
hão de poder juntar
fora e dentro
conteúdo e continente

fazer da gente, galáxia
tornar-nos ao menos um segundo
unos
pra prosseguir, perguntando

O texto em itálico é da velha canção de Bob Dylan. A foto é do Cauê.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Visão


caracara
carcará
cara
cará
muitos
de uma vez

muitos
em sequencia
carcarás
na cidade

em meio
ao caos
seu vôo

minutos
antes
da chuva

no escuro
que se
anunciava

seu vôo
certeiro,
brincavam

vejo gato
cachorro
urubu
e pardal

mas o gavião
me vê
me encontra
antes
que eu a ele

assobia
chama
eu ouço
entendo

me protege
da chuva
do escuro
me guia

caracara
carcará
cara
cará

clã dos pássaros
me lanço
grito
e vôo