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terça-feira, 3 de maio de 2011

Púrpura


Gosto de escrever sobre comida
talvez porque goste muito de cozinhar
mais do que de comer, até
Acredito que dar de comer
é um ato sagrado
Assim, alimentos não são
simples ingredientes
O pão, por exemplo, tem alma!
temperos são sensíveis,
sementes guardam o sol dentro delas,
frutas são pura alegria...
tem coisa mais infantil
do que se lambuzar de manga coquinho?

A jaboticaba é uma festa: "ploct, pluct, nhoc"
fruta impossível de linda
primeiro a árvore, que se demora em crescer
"A gente planta para os netos", dizem os mais velhos
Depois de muitos anos de regas abundantes,
no tempo certo, vem a fulorada:
miúdas, branquinhas, delicadas,
muitas, centenas de flores, grudadas direto no tronco...
um dia são carocinhos... no outro dia
nem o vestido da princesa era mais lindo!

Quando as flores se vão, o miolo fica, sequinho,
embaixo dele, vai se inchando o fruto verde
até ficar tal bola de gude
e vai rajando, rajando de lilás,
lindo, lilás e verde, escurecendo
madurecendo... roxo!
Mas que vai ficando escuro,
púrpura, quase, quase que preto
em demora de adoçar o que tem dentro...
Daí é uma festa de verdade,
depois de casamento, a lambança:
que é de comer e se regalar,
com o perdão da fulerage...

E as cascas, o que faz co'elas?
ração pros porcos, se tiver os tais,
Se não, e bem melhor aproveitada,
lava bem numa peneira
despeja num tacho,
açúcar, um tanto que dê, sobre as cascas
cravo e pau de canela, se tiver,
e ferve que ferve...
sai uma geléia tão boa
artes daquela fibra
que fica pegada na casca
e com o calor, despega...
mistura com o roxo do lado de fora
cor que desgruda também
e deixa a gente com o gosto
da frutinha por mais tempo

Pra fulerage ficar melhor
só botando cachaça,
depois coar num pano virgem
e ir esconder em lugar escuro,
bem arrolhada, durante 30 dias...

Licor de jaboticaba, já provou?

domingo, 31 de agosto de 2008

Bonsucesso


A santa se espanta
com tanta festa

com tanto barulho
em torno dela

A imagem primeira

esta, já não existe

A outra, bonita

já nasceu festeira


Muitos anos atrás
a festa era só

quermesse de gente nossa

pouco dinheiro e muita fé

De caminhão ou a pé
ia o povo pra festa
de lenço no bolso

pro suor na testa


A carpição do terreiro

era o mote de então
como pra construir casa

se fazia mutirão


Depois da lida, o padre

benzia a terra limpinha
Todo mundo guardava

da terra benta um 'cadinho


Pra saudade, febre, dores,
animal doente, plantação

Nossa Senhora da Terra
tirava tudo com a mão

Agora a terra vermelha

é que vem de caminhão

a carpição é passado

terra benta é Tradição

A quermesse, a novena,
tem muito, muito mais gente,

Tem palco, alto-falante

vendedor de cachorro-quente


A santa de vez, tem vontade
de sair pra dar uma espiada

rodar no meio do povo

fogos, catira, empolgada


Mas se contém, contrita
Coisa de santa, não é
Olha pela terra da gente
que não planta, mas tem fé

A Festa da Carpição na Igreja de N.Sra. do Bonsucesso é tradição na aldeia, há mais de duzentos anos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Herança


Dia 13 de junho foi dia de Santo Antoninho.
Meu vô Antonio, se estivesse vivo, faria aniversário.
Teria festa na vila. Com flor de papel crepom, bandeirinha e fita.
Mastro de eucalipto pros santos, bombinha e fósforo
de cor.
Foguetório... paçoca que ele socava no pilão.
Fogueira grande, que os tios armavam no meio do quintal.
Ia ter quadrilha no terreiro, com o disco do Mário Zan.
A mineirada toda já teria chegado, uma semana antes,
pra preparar as 'quitanda'.
O cheiro dos doces, milho, no ar.
Mãe amarrando pamonha.
Vó de lenço na cabeça, sempre às voltas com o fogão de lenha.
Arroz-doce com canela, curau, doce de abóbora.
Irmãs, primas e primos.
Uai e trem, em toda conversa.
" _ Isso é do tempo que Rio Pardo era corguinho..."

diria meu avô, se me visse agora.

Bênção, vô Antonio!
Pro Cauê, que viveu um tiquinho dessa herança e já acende as próprias fogueiras.
Pra todos os Antonios, até os pequenos e de olhos azuis...