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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Serenata


É normal que as coisas saiam do controle
É normal, tento me convencer, que as coisas saiam do controle
Senão o que explicaria
a peça no forno entortar
a agulha furar o dedo
o bolo desandar...

Todas as pequeninas coisas
que parecem ter vida própria
(artes do fogo, do ar...)
lembram a fantasia infantil:
_Quando a gente está dormindo, tudo conversa,
tudo se move e brinca e dá risada,
o fogão, os brinquedos, as xícaras e a prateleira.
Pessoinhas saem dos livros e passeiam pela casa,
que nem naquele filme do museu, sabe?

Dito assim, parecem artes noturnas (coisa de Saci)
sumirem agulhas, dedais,
mudarem-se os livros das estantes
e pra debaixo da cama ir parar
o anel que tu me destes.

Escapam do frágil controle que fingimos ter
as auroras, os vendavais,
as teias prateadas das aranhas
e a lua nova que teima em brilhar
trazendo a música que invade os dormitórios.

Como controlar
a mão do poeta que procura um verso
a voz de mulher, que é capaz de criar mundos no mundo,
o alarido dos amigos que se encontram?

Que bom que as coisas saem do controle,
ainda bem!

A expressão em itálico refere-se a canção "Livros", de Caetano Veloso.
O bordado mágico da foto foi feito pela Trudy, índia colombiana com nome alemão!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Passo-preto

a letra no papel
a letra torta
o papel

a tinta
a tinta na caneta
preta

o bico
o bico da pena
ponta

a pluma
paina que paira
voa

a ave
dor que magoa
canta

'Assum preto véve sorto
mas não pode avoá
mil veiz a sina
de uma gaiola
desde que o céu, ai
pudesse oiá'

a letra
mais triste
real

crueldade
atroz
banal

'Furaram os óio
do assum-preto
pra ele assim, ai
canta mió'

seguimos
soltos
cantando

Gonzagão, o Véio Lua, se foi e nos deixou esta canção.
É a obra mais linda, triste e cruel que eu conheço.
Brasileira, remete à exploração de negros e índios, que perdura...
A foto é do amigo artista Alexandre Vilas Boas, para quem enviei a arte-postal. Mais em: http://blackbirdproject.blogspot.com/