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sábado, 21 de junho de 2008

Giz

O exercício da escrita
no caderno virtual
diário de adolescente
de quarenta e tantos
(envelhescente, então)

vai somando os amigos,
dividindo angústias,
subtraindo o que foi.
Multiplica o que poderá

Como na folha de papel
que embrulhava o pão
copiava as tabuadas
com lápis no. 2

Como na primeira iniciação:
escrever com caneta tinteiro
exercício que retomo,
pra lembrar onde aprendi

No terceiro ano da escola,
com 8 anos então,
treinava escrever com tinta
cada pausa era um borrão

Depois vieram as Bic
expressão de liberdade
ainda borravam um pouco
e vazavam no estojo

Mas a lembrança remota
a mais doce, proustiana,
caixa grande de giz de cera
cera de abelha, Albion

O estojo de madeira
com tampa que deslizava
o rótulo colorido,
as letras pretas, 'modernas'

E quando abria a caixa
enfileirados e lindos
meus brinquedos preferidos
o perfume de mel que tinham

A cor era bem vibrante
(descobri que cor cheirava!)
Então comia com os olhos
meu estojo de giz de cera

Os desenhos eram iguais
aos de qualquer criança no mundo:
sol, casa, árvore,
água, gente, caminho

Pra escola se ia à pé
contando as pedras do chão
cachorros acompanhando
sacola com cheiro de pão

A velha professora
hoje sou eu e olho
a criança, a adolescente,
que não querem ir embora


A foto é de 1981 e foi o amigo Ivaldo quem tirou, na faculdade.
"Envelhescente" é uma expressão do Mário Prata, no livro Diário de um Magro.
Marcel Proust escreveu Em busca do tempo perdido.